Resenha de Os Funcionários, de Olga Ravn

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Você já parou para pensar no que seus colegas de trabalho realmente pensam sobre você? Sobre a empresa? Sobre as estranhas rotinas que repetem todos os dias sem questionar? Agora imagine que seus colegas não são exatamente humanos — e que o local de trabalho é uma nave interestelar orbitando um planeta misterioso chamado Novha.


Editora Todavia Book cover
136 páginas

Sinopse:

Uma viagem distópica e perturbadora que se transforma em um pesadelo existencial. Em um futuro distante, a milhões de quilômetros da Terra, humanos e humanoides viajam a bordo da nave seis mil. Sua tarefa é explorar Nova Descoberta, um planeta aparentemente árido e sem atrativos. As seguidas incursões pelos vales e penhascos do lugar, no entanto, acabam revelando objetos estranhos, logo transportados para o interior da nave e acondicionados em salas especiais. Com a chegada desses artefatos, envoltos de incompreensão e mistério, a convivência na nave seis mil entra rapidamente em uma espiral de degradação. Estruturado como uma série de depoimentos compilados por uma comissão investigativa, Os funcionários narra os eventos ocorridos na nave após a descoberta dos objetos.


Os Funcionários, da dinamarquesa Olga Ravn, é um dos livros mais inventivos e perturbadores que a ficção científica produziu nos últimos anos. E não, não é por ter alienígenas ou batalhas espaciais. É pela forma como conta sua história: uma colagem de depoimentos de funcionários da nave, sem ordem cronológica aparente, sem narrador onisciente, sem explicações. Aos poucos, o leitor monta o quebra-cabeça — e descobre que o mistério não está nos Objetos trazidos de Novha, mas nas próprias criaturas que os coletam.

A estrutura é o grande trunfo do romance. São 180 depoimentos numerados, cada um de um funcionário diferente — alguns humanos, outros “humanoides” (seres criados em laboratório, idênticos em aparência, mas supostamente sem sentimentos). As falas se repetem, se contradizem, se complementam. Um mesmo evento é descrito de múltiplas perspectivas, em momentos diferentes da linha do tempo. O leitor nunca tem certeza absoluta do que realmente aconteceu — mas, estranhamente, consegue compreender a história por completo. Ou quase. Porque Ravn não está interessada em respostas fáceis, e sim no que os depoimentos revelam sobre quem fala.

E o que eles revelam é de uma potência desarmante. Aos poucos, percebemos que os humanoides estão desenvolvendo algo que não deveriam: desejos, memórias, sonhos. Eles começam a questionar sua função, a sentir falta de algo que talvez nunca tenham tido, a desejar corpos que não são os seus. Os humanos, por sua vez, oscilam entre a culpa, a curiosidade e o medo — afinal, se uma máquina pode sentir, o que isso diz sobre quem a criou? A narrativa fragmentada escancara o quanto o trabalho aliena, coisifica e padroniza, independentemente de você ter sido fabricado numa incubadora ou nascido de parto normal.

Olga Ravn
Olga Ravn

A fluidez da leitura é outro feito notável. Mesmo com tantas vozes, com tantas idas e vindas no tempo, o livro não cansa. Pelo contrário: cada depoimento é uma peça que se encaixa (ou desencaixa) no mosaico, e a vontade de entender o todo move as páginas com uma urgência silenciosa. É um livro que se lê como quem ouve fofocas no intervalo do café — só que as fofocas envolvem crises existenciais, revoltas silenciosas e a pergunta incômoda sobre o que nos torna humanos (ou mais que humanos).

Olga Ravn constrói uma ficção científica que não precisa de naves explodindo ou monstros digitais. A tensão está no olhar de um humanoide que começa a sonhar, na hesitação de uma funcionária ao descrever um colega, na palavra que se repete em depoimentos diferentes como um eco assombrado. É criativo, é diferente, é fluido — e, acima de tudo, é humano. Mesmo quando quem fala não é.

Prepare-se para terminar o livro e olhar para seus colegas de trabalho com outros olhos. E para se perguntar, no fundo: se um dia te pedissem para dar um depoimento sobre sua rotina, o que você diria? E o que estaria escondido nas entrelinhas?

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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