Resenha de Blade Runner, de Philip K. Dick

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Bem-vindo a San Francisco, 1992 — ou 2021, dependendo da edição —, onde a humanidade se agarra a testes de empatia para provar que ainda é humana. E onde caçadores de recompensas como Rick Deckard ganham a vida “aposentando” androides fugitivos.


Editora Aleph Blade Runner (Coleção "Sci-Fi" TAG) - Philip K. Dick
272 páginas

Sinopse:

Rick Deckard é um caçador de recompensas, vivendo em uma San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas. Um novo trabalho pode ser o ponto de virada para melhorar seu padrão de vida e realizar seu sonho de consumo: uma ovelha de verdade, para substituir a réplica elétrica que ele cria em casa. Para isso, Deckard precisa perseguir e aposentar seis androides que estão foragidos, se passando por humanos. Mas as convicções do detetive podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida quanto ele acreditava. Em Androides sonham com ovelhas elétricas?, título original deste livro, Philip K. Dick cria uma atmosfera sombria e perturbadora para contar uma história impressionante, e abordar questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana.


Blade Runner — ou Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, no título original — é o livro que pariu um dos filmes mais icônicos do cinema, mas não se engane: a obra de Philip K. Dick é muito mais estranha, melancólica e filosófica do que qualquer adaptação poderia capturar. Lançado em 1968, poucos anos antes do clássico dirigido por Ridley Scott, o romance já carregava em suas entranhas as perguntas que assombrariam a ficção científica dali em diante: o que nos torna humanos? E se a resposta for apenas um truque bioquímico?

A trama é, sim, uma investigação policial. Rick Deckard é um caçador de recompensas que precisa “aposentar” seis androides Nexus-6 fugitivos, modelos tão avançados que são praticamente indistinguíveis de seres humanos. Mas enquanto percorre as ruas empoeiradas de uma cidade decadente, cercado por resíduos radioativos e pela promessa vazia de emigração para Marte, Deckard se vê enredado em algo maior: o Museu da Empatia, a religião do Mercerismo, a dúvida sobre sua própria humanidade. O cenário é cyberpunk antes do termo existir — tecnologia suja, megacorporações, ruas encharcadas de neon e solidão.

Blade Runner (Do Androids Dream of Electric Sheep?) by Philip K. Dick  (Aleph, 2019) - Fonts In Use

O que torna o livro genial, porém, não é o ritmo ágil ou a estrutura de suspense — embora ambos estejam lá. É a forma como Dick recusa respostas fáceis. Os androides são frios e calculistas? Alguns sim. Outros, porém, demonstram medo, desejo, até arte. E os humanos? Deckard sonha com animais elétricos (porque os reais são artigos de luxo), coleciona objetos falsos e se pergunta se o teste de empatia não seria apenas mais uma convenção social vazia. No fim, a linha entre caçador e caça se dissolve em meio a questionamentos sobre consciência, alma e o direito de existir.

A escrita de Dick é quase jornalística, mas carrega uma angústia existencial que permeia cada diálogo. Ele não explica demais, não entrega respostas — e é isso que torna o livro tão atemporal. A estética que ele ajudou a consolidar — megacidades decadentes, tecnologia opressora, identidades fragmentadas — tornou-se moeda corrente na ficção científica, mas poucos autores conseguiram reproduzir a inquietação visceral que ele provoca.

Prepare-se para terminar a leitura com a mesma pergunta que atormenta Deckard: afinal, o que significa ser humano? E, mais incômodo ainda: será que a resposta importa?

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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