Geni Núñez nos oferece em Descolonizando Afetos uma reflexão necessária sobre como os povos originários concebem e vivenciam o amor, questionando os padrões afetivos impostos pela colonização.
Editora Paidós
192 páginas
Sinopse:
Atravessada pela poética de seu povo, a ativista indígena Guarani, psicóloga e escritora Geni Núñez promove em Descolonizando afetos um exercício de repensar a exclusividade nos relacionamentos afetivos, partilhando reflexões anticoloniais sobre o tema, tanto do ponto de vista histórico e macropolítico quanto em relação às nuances cotidianas e interpessoais. A partir de uma perspectiva original e com uma linguagem única, a autora desconstrói alguns dos equívocos mais comuns a respeito da não monogamia e desenvolve reflexões que podem servir de acolhimento a pessoas que desejam vivenciar outras formas de amar.
O livro, publicado de forma independente, traz uma abordagem leve e acessível para temas que poderiam ser densos, tornando-se uma porta de entrada especialmente valiosa para quem está começando a questionar a monogamia compulsória.
A autora constrói seu argumento entrelaçando memórias pessoais, saberes ancestrais e reflexões contemporâneas sobre relacionamentos. O resultado é um texto que flui entre o ensaio e a poesia, mostrando como diferentes culturas indígenas desenvolveram formas próprias de amar e se relacionar, muito antes que o modelo monogâmico cristão fosse imposto como única possibilidade legítima.
O grande mérito do livro está em apresentar a não-monogamia não como uma invenção moderna ou modismo urbano, mas como prática ancestral de diversos povos. Geni Núñez desmonta a ideia de que existe uma forma “natural” ou “correta” de amar, mostrando que o que consideramos normal é, na verdade, uma imposição colonial que apagou outras formas de existir e se relacionar.
Para iniciantes no tema, o livro funciona como um convite gentil à reflexão. Sem jargões acadêmicos ou teorias complexas, a autora consegue provocar questionamentos profundos sobre ciúme, posse, exclusividade e os scripts românticos que internalizamos. É impossível terminar a leitura sem repensar ao menos algumas das “verdades” que carregamos sobre amor.

A linguagem poética permeia a obra, criando momentos de beleza e respiro entre as reflexões mais densas. No entanto, para quem já acompanha o trabalho de Geni nas redes sociais, especialmente seu Instagram, pode haver uma sensação de déjà vu incômoda. Muitos trechos parecem transposições diretas de posts, o que diminui o impacto para seus seguidores mais assíduos. O livro poderia ter se beneficiado de um aprofundamento maior, trazendo conteúdos e reflexões inéditas que justificassem mais plenamente a transição do digital para o impresso.
Ainda assim, Descolonizando Afetos cumpre um papel importante ao centralizar vozes e saberes indígenas no debate sobre relacionamentos e afetividade. Núñez nos lembra que a descolonização não é apenas um conceito político ou territorial, mas algo que precisa acontecer também em nossos corações e camas. É um livro que planta sementes, mesmo que algumas já tenham germinado em outros jardins digitais.


