Resenha de Refúgio, de Harlan Coben

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Você já teve a sensação de que sua vida inteira foi construída sobre uma mentira? Que as pessoas que você mais ama escondem segredos tão grandes que, se revelados, desmoronariam tudo o que você conhece? Agora imagine ter quinze anos. Este é o mundo de Mickey Bolitar. Bem-vindo a Refúgio.


Editora Arqueiro Book cover
224 páginas

Sinopse:

Apresentado ao público pela primeira vez no suspense Alta tensão, Mickey Bolitar agora se vê obrigado a ir morar com seu tio Myron, ex-agente do FBI, após testemunhar a morte do pai e internar a própria mãe numa clínica de reabilitação. Em Refúgio o rapaz precisa se esforçar para conviver com o tio, de quem nunca gostou muito, e ainda se adaptar ao novo colégio. Para sua sorte, ele logo arruma uma namorada, a doce Ashley, que também é nova na escola. Quando sua vida parece estar entrando nos eixos, o destino lhe reserva uma surpresa: Ashley desaparece misteriosamente. Determinado a não perder mais uma pessoa importante em sua vida, Mickey contará com a ajuda de seus novos amigos, os excêntricos Ema e Colherada, para seguir o rastro da namorada. Para piorar, uma idosa reclusa da vizinhança lhe conta que seu pai ainda está vivo, sem dar maiores explicações. Quando esses dois mistérios se cruzam, Mickey descobre que está envolvido numa rede de intrigas que o levará a questionar a vida que acreditava ter. Perspicaz e esperto como o tio Myron, Mickey está disposto a fazer tudo o que for preciso para salvar as pessoas que ama.


Harlan Coben, mestre do suspense psicológico e autor de dezenas de best-sellers protagonizados pelo agente esportivo Myron Bolitar, resolveu dar um passo além (ou seria um passo ao lado?) e criar uma série protagonizada pelo sobrinho de seu personagem mais famoso. Refúgio é o primeiro volume da trilogia Mickey Bolitar, e surpreende: consegue manter toda a acidez, a fluidez e o suspense hipnótico que consagraram Coben no universo adulto, mas agora com protagonistas adolescentes, dilemas adolescentes e — por que não? — dramas adolescentes de dar nó na garganta.

A trama começa com Mickey ainda tentando processar a morte do pai, ocorrida em circunstâncias obscuras. Sua mãe, devastada, mergulha em uma dependência química que a torna incapaz de cuidar do filho, e ele vai morar com os tios Myron e (esporadicamente) com a avó, em Nova Jersey. Novo colégio, novos colegas, novas regras. Até aí, o manual do adolescente deslocado. Mas Coben não é Coben à toa: no segundo capítulo, Mickey conhece uma garota enigmática chamada Ashley, que parece entendê-lo como ninguém. No terceiro capítulo, ela desaparece. E a partir daí, o livro engata uma perseguição alucinante por respostas que envolvem uma organização secreta, segredos de família, um abrigo subterrâneo chamado Refúgio e um passado que Mickey jamais imaginava ter.

O que impressiona em Refúgio é como Coben transfere sua assinatura para o universo jovem sem infantilizar a narrativa. Os diálogos continuam afiados, com aquele humor seco que seus leitores conhecem bem — Myron Bolitar, inclusive, aparece com suas piadas prontas e seu jeito atrapalhado de tentar ser um tutor legal, o que rende momentos divertidíssimos. O suspense é construído na mesma medida: pistas falsas, reviravoltas, personagens que parecem uma coisa e se revelam outra. O leitor adolescente (e o adulto que se aventurar) vai devorar páginas sem perceber, hipnotizado pela pergunta que ecoa em cada capítulo: o que realmente aconteceu com Ashley?

Mas talvez o maior trunfo do livro seja o desenvolvimento dos dramas adolescentes sem perder a complexidade. Mickey não é apenas um jovem detetive amador; ele é um garoto carregando luto, culpa e a sensação de ter sido abandonado. Seus novos amigos — Spoon, um nerd gigante e gentil, e Ema, uma garota gótica que sofre bullying e esconde suas próprias feridas — não são meros coadjuvantes funcionais; cada um tem sua história, suas dores, suas camadas. E é bonito ver como a amizade entre eles vai se consolidando não apesar das diferenças, mas por causa delas. Coben mostra que adolescentes podem ser profundos, contraditórios, leais e medrosos ao mesmo tempo — assim como os adultos. Às vezes, mais.

Trilogia Mickey Bolitar -Harlan Coben | Colecionando histórias

Outro acerto é a forma como o autor aborda temas como bullying, imagem corporal, primeiros amores e a busca por identidade sem cair em didatismo barato ou lições de moral forçadas. Tudo surge organicamente da trama, das reações dos personagens, das escolhas que fazem. E, claro, há o pano de fundo dos segredos de família — a grande especialidade de Coben. O que Mickey descobre sobre seu pai, sobre sua própria origem, sobre o tal Refúgio, não apenas resolve os mistérios imediatos, mas reconfigura tudo o que ele pensava saber sobre si mesmo. É de partir o coração e, ao mesmo tempo, fortalecer.

Prepare-se para começar a ler e não conseguir parar. Prepare-se para torcer por Mickey, Spoon e Ema como se fossem seus amigos de verdade. E prepare-se para, no final, correr atrás do próximo volume — porque Refúgio é apenas o começo de uma jornada que promete muitos segredos ainda a serem revelados.

Dica: livro virou série na Amazon Prime em 2024! 

Caíque Apolinário
Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
(elu/delu - ele/dele) Escritor de quatro livros de ficção cientifica e host de alguns podcasts do portal. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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