Conceição Evaristo nos entrega em Olhos D’Água uma coletânea de contos que sangram realidade, onde cada narrativa é um espelho das vidas invisibilizadas nas periferias brasileiras.
Editora Pallas
116 páginas
Sinopse:
Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.
Publicado em 2014, o livro reúne quinze contos que transitam entre a brutalidade do cotidiano e a ternura da resistência, construindo um mosaico poderoso sobre o que significa ser negro e pobre no Brasil.
Temos um podcast sobre o livro, você pode ouvir aqui!
A escrita de Evaristo é visceral e poética ao mesmo tempo – uma combinação rara que nos permite sentir a dor sem perder a beleza da linguagem. Cada conto funciona como um soco no estômago seguido de um abraço, mostrando que mesmo nas situações mais degradantes, a humanidade persiste e resiste. A autora não romantiza a pobreza, mas também não reduz seus personagens a vítimas unidimensionais.
As histórias navegam por territórios duros: a violência policial que ceifa vidas jovens, a prostituição como única saída econômica, o abandono, a fome que corrói não apenas o corpo mas a dignidade. Em “Maria”, acompanhamos uma empregada doméstica que enfrenta a violência doméstica em silêncio; em “Duzu-Querença”, uma mendiga que carrega consigo todas as dores de uma vida de exclusão. São narrativas que expõem as feridas abertas da desigualdade brasileira.
O que impressiona é como Evaristo captura com precisão cirúrgica os dilemas da juventude periférica. Os jovens de seus contos estão sempre no fio da navalha – entre o sonho e a desilusão, entre a esperança de um futuro melhor e a sedução do crime como única possibilidade de ascensão. A autora não julga, apenas mostra como o sistema empurra esses jovens para becos sem saída, onde a violência se torna linguagem e sobrevivência.
Mas é justamente quando parece que a escuridão vai engolir tudo que Evaristo revela sua maior força: a capacidade de mostrar como o cuidado coletivo e os laços comunitários funcionam como rede de proteção em um mundo que insiste em destruir. As mulheres que dividem o pouco que têm, as vizinhas que cuidam dos filhos umas das outras, os terreiros que acolhem, as rodas de conversa que curam – toda uma estrutura de afeto que o Estado abandona, mas que a comunidade reconstrói diariamente.

O conto que dá nome ao livro é exemplar nesse sentido. A narradora busca obsessivamente lembrar a cor dos olhos de sua mãe, e nessa busca aparentemente simples, Evaristo constrói uma reflexão profunda sobre memória, ancestralidade e pertencimento. Os olhos d’água da mãe – que chorava escondido para os filhos não verem – tornam-se símbolo de todas as lágrimas não choradas, de toda dor engolida para seguir em frente.
A solidariedade aparece como forma de resistência política. Quando o Estado falha, quando a polícia mata ao invés de proteger, quando o sistema de saúde ignora, são as redes de apoio comunitário que garantem a sobrevivência. Evaristo mostra que o “ubuntu” – eu sou porque nós somos – não é filosofia abstrata, mas prática diária de sobrevivência do povo preto brasileiro.
É notável como a autora desenvolve a complexidade dessas vidas sem cair em maniqueísmos. Seus personagens cometem erros, fazem escolhas questionáveis, machucam uns aos outros – mas sempre dentro de um contexto que nos faz entender, mesmo quando não concordamos. A mãe que abandona os filhos, o jovem que escolhe o tráfico, a mulher que permanece em relacionamento abusivo – todos ganham humanidade e contexto.
A violência em Olhos D’Água nunca é gratuita. Cada agressão, cada morte, cada trauma serve para expor as engrenagens de um sistema que produz e reproduz violências cotidianamente. Mas Evaristo nos mostra também que a verdadeira revolução pode estar nos pequenos gestos: na mãe que conta histórias para fazer os filhos esquecerem a fome, na avó que preserva as tradições africanas, na criança que insiste em sonhar apesar de tudo.

Este é um livro necessário e urgente. Conceição Evaristo não nos poupa do desconforto de encarar o Brasil real, aquele que preferimos ignorar. Mas também nos oferece a possibilidade de redenção através do reconhecimento e do afeto. É uma obra que nos lembra que literatura não é apenas entretenimento, mas ferramenta de denúncia e transformação.
Olhos D’Água deveria ser leitura obrigatória para qualquer um que queira entender as complexidades do Brasil contemporâneo. É um livro que educa, comove e transforma, nos forçando a enxergar aqueles que a sociedade insiste em tornar invisíveis.


